segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

UMA VITÓRIA QUE NÃO VIRA MÉRITO NÃO PASSA DE UMA BELA HISTÓRIA


Que limitação boba essa nossa de viver um dia por vez. Esse negócio de atravessar a ordem do tempo em fila indiana definitivamente não está com nada! Digo isso levando a efeito a efêmera duração de nossas conquistas. Aliás, gosto muito de falar sobre elas. As vitórias dão sentido à vida. Justificam nossas tragadas de oxigênio, costumo dizer!

O alcance dos objetivos a que estamos propostos traz consigo uma série de significados de suma importância em nossa história.
Vivenciar uma conquista legitima sempre uma espera, nos permitindo entender situações que quando vividas figuravam como descabidas.
Também encerram ciclos, tal qual um ponto final encerra uma frase, a vitória pode ser entendida como o triunfo de uma jornada.
Vencer também nos predispõe a novos alvos. A insatisfação perene, matriz do desenvolvimento psíquico segundo Freud, se encarregará de nos indicar novas metas,novos sonhos, novos objetivos.

Tudo seria perfeito, a não ser por um detalhe: Toda vitória tem prazo de duração. E é exatamente aí que faço valer meu lamento sobre a irresistível lei da física que descreve nosso condicionamento ao tempo e espaço.

A vitória de hoje só terá o sabor da vitória no hoje! Depois, pouco a pouco torna-se esquecida, ou meramente oclusiva. 

O tempo, conforme já disse em outro texto, é o meio por onde nos estabelecemos como seres em evolução. O ato de vencer é perene porque não se estende para além de sua manifestação. Não se impera sobre o mesmo objetivo duas vezes na mesma circunstância.

 A vitória possui um caráter inutilizante pouco comentado.

Conheço a história de um garoto que com sua valentia derrotou sozinho um gigante. Foi muito celebrado, e mais tarde tornou-se rei de seu povo. Tal rei não se valeu daquela vitória para basear sua estratégia de vida. Tratou-se de buscar novas vitórias, novos desafios. Davi já possuía méritos que o antecediam, e que, provavelmente lhe favoreceram às vitórias que vieram.

Acredito que o que faz uma vitória tornar-se mérito é a continuidade que o vencedor dedica ao alcance de novos objetivos, caso contrário, sobrariam memórias de grandiosas histórias. Não mais que isso.

Um mérito é uma extensão do ato de vencer. Talvez seja essa a única forma de atravessar a linha do espaço e tempo portando algo por debaixo do braço.

Uma vitória não convertida em mérito é o que chamo de ato de sorte.

Celebrar uma vitória é uma forma de transformá-la em mérito. Portanto, comemore cada objetivo alcançado, lembrando tal sensação irá passar.

Conquistar e merecer deveriam ter o mesmo significado. Talvez até tenham no mundo dos esforçados.

"Enquanto dançavam, as mulheres cantavam: 'Saul matou milhares, e Davi, dezenas de milhares'".
(1Samuel 18:7)

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

QUANDO SOLTO MINHAS FERAS NEM O POKEMÓN GO AS LOCALIZA

Houve um tempo em que era propício ao homem instruído ser dado ao auto controle. Em meados do século XVIII, uma das características principais na distinção entre a classe burguesa e o proletariado, para além do poder aquisitivo, era um código de postura e compostura que apregoava o bom uso do vocabulário da língua culta aliado ao emprego adequado do tom de voz como referenciais de uma boa educação. Os homens eram classificados pelo que ostentavam e faziam, juntamente com o traço cultural da época, num esforço tremendo para abdicar dos seus instintos mais primitivos.

A história nos mostra que havia uma espécie de convenção social acerca dos bordéis, como se o tais fossem o único ponto de convergência entre a natureza humana e a cultura. Neles eram permitidos toda sorte de práticas recriminadas à luz do dia. Sexo, jogos e bebedeiras. Todos os limites podiam ser comprados.

O tempo passou e com ele vieram as constantes transformações culturais. O homem recatado de ontem passou a exorcizar suas feras e assim expandir seus limites quanto aos seus desejos na atualidade.

Hoje é fácil perceber o quanto o homem cede ao desejo dos olhos, as pulsões inconsequentes. As feras povoam não só os pensamentos, mas as relações, o dia a dia.

Longe de mim fazer aqui qualquer juízo de valor sobre o comportamento humano, uma vez que não me compete qualquer tipo de legalismo. O que proponho aqui é uma reflexão sobre o que estamos fazendo com nossas feras que andam soltas por ai.

Estamos inseridos em um contexto de cobrança e insatisfação recorrente. Não há mais amarras que contenham uma fera cada vez mais fortalecida por tantos desajustes.

Seja em casa, no trabalho ou no trânsito. Seja pela ira, pelo desejo ou pela loucura. As feras ultrapassam o limite da razão. Coexistem junto com o maquiado aspecto de normalidade.

Tal qual a brilhante obra "O Médico e o Monstro" de Robert Louis Stevenson, acredito que o homem é cindido em sua índole. Com duas naturezas opostas dentro de si, o ser humano busca equilibrar-se em suas vivências. Se uma natureza é boa e evoca a admiração, a compaixão e o apreço de terceiros; a outra já é má, forjada na crueldade de um temperamento explosivo e inconsequente. 

Quando uma natureza se sobrepõe a outra, o desequilíbrio acontece. Se há excesso de bondade, o prejuízo tende a ser percebido na baixa auto estima, assunto pertinente para abordarmos em outro texto. Já quando as feras são postas para fora, em uma escala maior, ocorrem as fatalidades que superabundam os noticiários. 

Desafio para os mais atentos seja talvez, procurar reconhecer as feras que andam desenjauladas ultimamente ao seu redor. Nisto, temos muito a aprender com o famigerado gameplay que é febre mundial, o POKEMÓN GO. 

Quiçá possamos ser caçadores de nossos próprios monstros, aprendendo a distingui-los em nossa vivência. Embora não possuam cores vivas nem sejam visíveis através de realidade aumentada, são passíveis de constatação na maioria dos nossos desajustes.

Soltar nossas feras vez ou outra nos faz bem,  tão bem quanto aprendermos a recolhê-las na eminência de um mal maior.

"O homem que tem mente dividida  é instável em tudo o que faz." (Tiago 1:8)

segunda-feira, 23 de maio de 2016

UMA VIDA FEITA DE QUASE

Acabo de ler um texto publicado no site Spirit Science com o título: The 3 Simple Truths of Life (As três simples verdades da vida). Um belo texto de pegada Humanista com enfoque no poder transformador da decisão.

Confesso que frustrei minhas expectativas que até então eram das mais otimistas em relação ao conteúdo, talvez por ser "do contra" e discordar de quase tudo nessa vida, ou  talvez por perceber que a ideia ali manifesta corresponde a algo engessado que nem sempre funciona para todo mundo.

Pudera os conteúdos de auto ajuda serem distintos em suas argumentações de forma a se encaixar em todos os padrões de comportamentos, mas não são, e talvez por isso, nossa tendência seja achar toda leitura a este respeito sempre muito bela, poética, e até exequível, mas fundamentalmente sem resultado efetivo.

Desacredito as certezas absolutas. Uma fórmula de sucesso para algo fluído, como é a vida, nunca estará plenamente pronta. Viver é colecionar um somatório de experimentações. A gente só sabe que ao nascer, se tudo correr bem, vamos crescer, evoluir e migrar para uma finitude. Todo o demais bebe em conflitos, equívocos e apostas. Vivemos muito mais no "quase" do que no "com certeza". 

Ao contrário do que se apregoa, a vida no "quase" é muito mais comum do que se pensa e não há nada de errado em vivenciá-la. 
Somos uma geração de pessoas quase livres, quase felizes e quase prontas para quase tudo.

A maioria de nós faz parte do grupo dos medianos, nem tão bons, nem tão maus. E eu, particularmente, não vejo mal nenhum nisso. Ok, eu quase vejo um mal nisso.

Tão grandioso quanto ser "o melhor" deve ser o peso que se carrega por este título, ainda mais numa sociedade competitiva como esta nossa. Tudo bem que em se tratando de merecimento por competência, o título nunca será uma ameaça de perda eminente. Mas não é para os tais que escrevo hoje.
Por isso me conformo em ter um texto quase bom.

Enquanto o gringos escrevem sobre três verdades simples para vida, eu ponho em vogue apenas uma: A de que somos quase. Não pense você que estou a fazer apologia a mediocridade de uma vida simples. O que estou a propor é uma reflexão sobre o que vivenciamos de fato entre uma vitória e outra, ou entre uma derrota e outra. 

Bastante clichê a expressão "tudo é relativo", mas eu concordo com ela.
O texto que li dizia que se não formos atrás dos objetivos não iremos conquistar o que queremos. Este conceito é belo e até faz sentido, mas isso não é uma verdade absoluta. Há vários processos sendo desencadeados ao nosso redor sem que a gente saiba e é por eles que as surpresas costumam vir. Podemos sim colher onde não semeamos, desde que isso não nos seja uma expectativa, pois a surpresa esperada não é uma surpresa, mas sim apenas uma constatação. Surpresas dependem mais de um altruísmo alheio do que de nós.

Outro ponto que o texto trás é que se não perguntarmos, a resposta será sempre não. Torno a dizer: Tal afirmação é relativa. O sim não está atrelado ao ato de perguntar. O sim é uma consequência de algo que se pressupõe, ou quase isso.
Uma série de portas fechadas está mais relacionada a outros motivos maiores dos que aqueles que nos impede de tocar as campainhas.
O último ponto de discordância do texto humanista que trago é a retórica de que se não dermos um passo a frente, estaremos sempre no mesmo lugar. Entendo que o objetivo desta afirmação é levar a reflexão sobre o estado de inércia que prejudica muitas pessoas, contudo, vale considerar as mudanças que o ambiente ao nosso derredor sofre e acabam fazendo com que nos modifiquemos também. Não há como negar que somos, em parte, produtos do meio e que nesse quesito, acabamos rechaçados por um movimento maior que o nosso.
Mas sobretudo, minha crítica maior é relativa a inobservância dos efeitos da empatia. Não espero que percamos a consideração sobre a importância de termos nas mãos as rédeas da nossa vida. Só espero, contudo, que não deixemos de considerar o outro na sua subjetividade, nos colocando em seu lugar. Isso nos fará permanecer humanos quanto ao sentir, e em sendo assim, considerar as nuances que atravessa a vivência humana, tão complexa mas também ao mesmo tempo tão passível de experimentação.
Ao invés de esperar a ação do outro, que tal se colocar no lugar dele e tentar compreender as razões de sua inércia?

Se você quase entendeu o que eu estou a dizer, tenho uma boa notícia: você está no caminho certo!

"...se alguém se considera importante, não sendo nada, engana a si mesmo. Mas cada indivíduo avalie suas próprias atitudes, e, então, saberá como orgulhar-se de si mesmo, sem viver se comparando com outras pessoas." (Gal. 6:3,4) 





quinta-feira, 28 de abril de 2016

NÃO ESPERE UM "PRA SEMPRE" DE QUEM VOCÊ SÓ TRATA COMO "AGORA"


Então tá: Lá estava ele, o príncipe, montado em seu cavalo branco, desbravando as florestas do sul, quando percebeu de longe um grandioso castelo perdido em meio em um vale de grandes árvores. Sua intuição o direcionava avante à estrutura desconhecida. Não sabia o que esperar, haja vista nunca ouvir falar de tal reino.

Aproximou-se daquele mausoléu gigantesco. Um silêncio quase que mortal o atravessara. Sussurrou um "oi", não obteve retorno. Decidiu então subir até a torre mais alta para avistar toda a extensão; foi quando lá chegando, viu uma bela donzela deitada sobre um leito. Sua beleza o desnorteara pois em toda a sua vida jamais havia visto alguém assim. Entorpecido pelo semblante da jovem, ele a tocou na face sentindo seu coração acelerar ao beijar-lhe os lábios imóveis num beijo lento e profundo.
Para sua surpresa, a bela moça indefesa despertara instantaneamente, e com um olhar de agradecimento devota ao seu salvador todos os dias restantes de sua vida.

Não sei se deu para perceber mas esse relato é uma adaptação minha do conto da Bela Adormecida, em partes, da dose de amor romântico idealizado que permeia as histórias infantis.

Inegável que essa dinâmica ocorra na subjetividade das pessoas. Estamos cercados de príncipes invasores e de bela adormecidas. 

É função do homem desde os primórdios avançar nas relações, talvez por seu instinto conquistador, talvez por sua necessidade de se estabelecer enquanto macho alpha. Já as belas andam cada vez mais adormecidas, amortizadas, eu diria. Talvez por uma mudança cultural, as belas estão adormecendo seus instintos  mais primordiais. Algumas com a ajuda da ciência cogitam até não mais menstruar.

Constatações sociológicas aparte, cabe destacar o dia seguinte do casal fabuloso, ao que todos chamam de "happy end". Imagine só conviver com alguém que lhe seja um completo desconhecido, cujo legado se deve a um favor que lhe foi prestado.

Imagine como seria estruturar uma relação com base na gratidão por algo que você nem pediu para lhe fosse feito. Da mesma forma imagine assumir um compromisso somente com base naquilo que o outro aparenta ser.

Não é de hoje que beleza e gratidão são ingredientes fundamentais dos amores românticos. Pouco importa o conhecimento da história do outro, sua índole, ou suas preferências. Achando a bela que se acha agradecida por ter sido despertada pelo príncipe salvador, tudo mais se dará!

Doce ilusão acreditar em um futuro a dois com base única e exclusivamente num  tempo presente favorável. Presentes surpreendem mais perdem o frescor com o passar do tempo.

Em outros termos, basear uma vida a dois levando a efeito apenas a paixão repentina e vivaz  é como lançar a boca uma goma de mascar e esperar que esta lhe traga saciedade.

Mais uma vez hei de apresentar um paradoxo: Se por uma lado a paixão desconheça qualquer indício de vicissitude para acontecer, por outro, não há de se dizer da hipótese de longa duração de uma relação sem antes ter para si os arcabouços que o outro traz consigo.

O agora não rende garantias para além do agora!

A problemática se estabelece a partir do momento em que nega-se o histórico, ou, na demonstração de fragilidade emocional em querer se esquivar dele. Que fria poderia o famigerado príncipe se envolver ao invadir um castelo de sabe-se lá de quem? Ou mesmo o que poderia ter contraído ao explorar os lábios da desconhecida? De igual sorte, que loucura da bela moça ficar a mercê de um qualquer para renascê-la. Destino cruel.

Não dá para controlar todas a variáveis é o que a ciência nos ensina. Mas acredito eu que também nem rola ficar à deriva, esperando pelo inesperado.

A vida é um misto de experiências. Antegozamos os benefícios do agora sonhando com as intempéries do para sempre. 

Queremos que os momentos bons durem para toda vida, mas esta retórica infelizmente cai já na eminência dos primeiros conflitos. Queremos um final feliz para o que ainda nem começou.

Pudera nosso complexo mundo interior crescer e maturar feito a lógica de nosso desenvolvimento. 

Precisamos de mais históricos nas nossas histórias. Precisamos de contextos que nos justifiquem. 

O beijo pode ser o do agora, mas o "felizes" certamente será  do para sempre!

"Portanto cada um de nós agrade ao seu próximo no que é bom para edificação." (Romanos 15:2)

terça-feira, 26 de abril de 2016

A LÓGICA DO PERCURSO


Dia desses estava eu a pensar sobre como a vida é cheia de surpresas descabidas. Vemos nas histórias dos super-heróis que todos passaram por  dilemas de extrema dor emocional o que evocou em cada um deles o censo de justiça crucial em suas atuações.

De nada adiantaria ao sujeito ser munido de plenos poderes sem antes ter um desconforto emocional que lhe obrigasse a emergir do lugar comum e passar a administrá-los.

Até hoje não sei ao certo se é a arte que imita a vida, mas com certeza, vivemos cercados de alegorias representativas da existência humana.

Temos em nós uma energia que nos propulsiona frente aos  trilhos do tempo, sempre presos a uma realidade palpável mas deslizantes sobre nossas esperanças e anseios. Nessa montanha russa que é a vida, somos embalados a vencer o medo que nos vence e a ultrapassar todos os altos e baixos que nos aguarda. Diante disso uma coisa é certa: Ninguém nunca morreu de frio na espinha, te garanto!

Ainda na metáfora, nossa vida altera de ritmo sempre que temos uma subida pela frente... Não dá pra subir em grandes alturas sem antes reunir uma força necessária para se chegar ou transpor. Justa e contrária é a descida, sempre tão rápida e atroz, nos mostrando que a queda é eminente ao descontrole, a perda de ritmo. Longe de mim me aventurar pelos campos da física, mas se coubesse uma definição para este texto seria sobre a beleza da física emocional.

Incrível como a intensidade das nossas ações acaba ditando o ritmo da nossa vida. Tendenciosamente gastamos mais energia vital vivenciando angústias. Em tempos de sofrimento, a garra destinada à superação da dor, quase sempre se confunde com a própria dor.

Se há grande pesar no sofrer, porque não haveria grande celebração em cada alegria vivida? Porém o desassossego urge e traqueja toda noção de organização. Ai de nós mortais que não sabemos dosar o ritmo da vida em todas as nuances.

A vida segue uma toada bastante particular. Nossas construções dependem do ritmo em que nos encontramos. Grandes feitos exigem uma dose extra de esforço, independentemente do ritmo com que se avança.  Nenhum super-herói já se encontrou na pressa dos seus dias normais sem antes romper com o disfarce social. A força da vida só entra em combustão quando encontramos sentido no caminho trilhado.

Certo é que o  mérito da jornada se deve não só a escolha do caminho mas também ao ritmo com que se desbrava, pois a trajeto é escolha, já a trajetória é descoberta.

De nada adianta sabermos o caminho mas desconhecermos o ritmo da caminhada. Outrossim, não há virtude na pressa ou no contrário, para aquele que não sabe aonde vai.

Importa prosseguir, agora e sempre. Ajuntando forças ou explodindo em energia. Prosseguir de um jeito ou de outro. A vida não para nem quando achamos que chegamos ao fim.

Entenda: Nem sempre o caminho se finda, muitas vezes o que acaba é a força para prosseguir.

Pense nisso, mas pense enquanto caminha...

"E dir-se-á: Aplanai, aplanai a estrada, preparai o caminho; tirai os tropeços do caminho do meu povo". (Isaías 57:14)





 


segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

A FACE QUE SE ENTREGA AO BEIJO É A MESMA QUE SE ENTREGA AO TAPA


A arte da guerra é sem sombra de dúvidas um impasse no mundo moderno. Diante de tanta evolução da raça humana, como pode o homem ainda se digladiar com seu semelhante a passo de morte estando este a defender a sua própria vida? Como pode a vida, um bem maior, possuir dois pesos tão diferentes? Como pode o sujeito em defesa da sua própria, intentar contra a do outro?

Tantas são as palavras ferinas arremessadas com grande furor em discussões altamente depreciativas,  que torna-se impossível passar ileso diante das crises de relacionamento.

O problema se agrava quando as marcas tornam-se profundas a ponto de se perpetuarem ao longo da existência do sujeito, embaçando o olhar a cerca de si e do outro que se apresenta ao longo da vida.

Algumas marcas na alma são tão nocivas que chegam a adoecer o corpo, a desvirtuá-lo. Os traumas ganham destaque quando falamos de comportamentos inadequados e causadores de angustia. Muitos são originários na imposição que o outro incuti na vida diária ou na forma rude com que se apresenta.

Mas a questão que paira não é sobre a origem do trauma, mas sim sobre a forma como se reage a ele.

A aproximação com o outro propicia uma série de desafios na dinâmica do relacionamento. O conflito passa a ser então uma espécie de tentativa de articulação de opiniões e sentimentos que divergem a cerca de um fenômeno.

Por mais que o ser humano se encontre evoluído, os conflitos ainda aparentam ser das eras passadas, principalmente no que tange a forma de ver e se desafiar pelo outro.

O outro exerce uma série de aspectos quanto a identidade do sujeito. Ninguém é para si. Somos sempre para o outro, estamos para outro e só nos reconhecemos por causa da existência de um outro, que no caso refere-se a qualquer pessoa que nos atravesse e nos ajude a traçar nossa história.

Ao que nos parece, a sociedade reproduz de forma amplificada os comportamentos  que o ser humano emite na forma particular. Se temos uma sociedade adoecida, haveria de ser pelo fato de originalmente existirem pessoas emocionalmente vulneráveis e confusas que passam a hastear bandeiras de intolerância frente aquilo que desconhecem e recriminam em si mesmas originalmente.

Verdade é que o outro acaba por ser um espelho a refletir o melhor e o pior de nós. Não em vão que nos sentimos tão inquietos diante de uma crítica. O absurdo costuma ser mais nosso do que costumamos pensar.

Há uma tendência em nos afeiçoar com o outro que nos reflete algo que nos seja agradável. Desenvolvemos amabilidade ao retorno de gentileza e isso se dá quando o outro enfoca e reflete o melhor que há em nós. Nesse contexto a expressão "amar é se reconhecer no outro", passa a ser absolutamente verdadeira.

Freud foi enfático ao destacar o Narcisismo como condição precípua de resistência ao Ego fragilizado. Em outras palavras, estava a dizer que o sujeito que volta para si o objeto de amor, nada mais esta fazendo do que evidenciar um "eu" enfraquecido diante da ação do outro.

Logo a ideia de que "antes só do que mal acompanhado" passa a destacar o inverso do que se pretende dizer.

Por mais que você não admita o outro é sim uma parte de você e está nele a correspondência daquilo que você sente que perdeu. Isso em todos os níveis.

Longe de mim incutir a impressão de que somos todos vazios de conteúdo e que a motivação dos nossos atos cabe exclusivamente ao famigerado outro; contudo, não dá para desconsiderar sua grandiosa influência em todos os nossos êxitos e erros.

Doravante o que proponho que possamos tangenciar o significado de nossas ações, considerando este outro por quem dispensamos tanta energia.

A propósito, nesse momento, você seria capaz de dizer quem é o seu outro e o quanto esta a viver por, para ou junto dele?

Oriente-se. Por mais distante que uma ilha esteja do arquipélago, ela nada é sem o mar que a rodeia.

Dar a outra face ao outro é um gesto da mais alta completude. É viabilizar a ele o crescimento por meio do arrependimento e vergonha.

"Ouvistes que foi dito: Olho por olho, e dente por dente.
Eu, porém, vos digo que não resistais ao mau; mas, se qualquer te bater na face direita, oferece-lhe também a outra;"
(Mateus 5:38,39)




sábado, 13 de fevereiro de 2016

DE DENTRO DO CASULO


Não é de hoje que tenho dito que somos permeados por duas realidades. Na verdade nem sou eu quem diz isso, eu apenas concordo com a maioria das sábias explicações Freudianas a respeito do sujeito.

Quando penso em realidade externa, ambiente visível e palpável, a considero como um ringue por onde lutam os bravos, caem os fracos e celebram os fortes. A realidade externa é um ambiente pluralizado, onde todos competem por um lugar a luz. Ali uma das principais palavras de ordem é o Poder.

Na realidade externa tudo se concretiza. Tanto a realização quanto a frustração, ambas se tornam uma verdade visível e compartilhada. Ali tudo é construído por intermédio de ações. Quem é, quem não é e até quem finge ser. Tudo passa pela crise da popularidade.

A realidade externa não perdoa intenções. Nesse estranho ambiente extra corpóreo, todo ato desencadeia uma reação e deixa um rastro. E olha que nem precisamos de física para entender esse processo. Experimente sair nu um dia de casa.

A realidade se mostra quase sempre cruel, e não tolera erros e  nem inadaptações. É por meio dela que as principais teorias foram formuladas e estão ai até hoje nos ajudando a entender esse estranho mundo ao qual estamos inseridos (embora muitos de nós nem os pertença).

A pura percepção da vida nos convoca à um movimento coletivo onde só os mais adaptados conseguem equilíbrio.Tal qual uma dança, a realidade nos convoca a cadência dos passos, ao encontro dos pares e ao movimento.

Mas o que seria da realidade externa sem a influência da interna que lhe dita, nessa dança, o ritmo e o tom?

Absorvemos a realidade por meio das nossas percepções e trazemos esse insumo ao emaranhado de sensações e pensamentos. Estou falando de realidade interior. Você pode não acreditar mas nossos pensamentos seguem uma lógica quase gramatical. Os pensamentos fluem em nossa mente de forma discursiva e  remetem, em grande parte, ao que vem do lado de fora.

Refletimos sobre o que ouvimos, vemos e sentimos. Nossos pensamentos influenciam totalmente nossos atos que são na verdade a materialização destes na realidade externa. Pronto: temos em nós o maior círculo vicioso que impulsiona a vida.

Por isso que somente pensar sobre um fenômeno raramente irá incutir em realização e agir impulsivamente também só tende a fazer o tempo passar sem resultados.

Se por um lado temos um mundo de pensamentos, do outro temos um caracterizado pelos atos e no meio disso tudo estamos nós.

Somos os mediadores dos nossos mundos e a melhor forma de permeá-los é através das fantasias. Não é atoa que as crianças possuem um mundo particular e por isso são tão leves, tão naturais. Sonhar que é gente grande é na verdade uma forma de existir em uma realidade nova e até então diferente.

As crianças nos ensinam muito sobre saúde emocional. Podemos aprender com elas sobre autenticidade, amabilidade e prioridade ao desejo (que é o que somos em essência).

 Não dá pra idealizar um mundo feito um jardim de infância, com intenções puras e doces. Mas cabe uma reflexão sobre os impactos que temos promovido nos mundos aos quais pertencemos.

Para o comportamento apático e ranzinza de uma sociedade capitalista pede-se mais cores e mais vida da criança interior.

Para a intolerância e doutrinas de morte primitiva, pede-se uma postura mais despretensiosa e mais focada as nuances do desejo. Desejo de ser ao invés de ter.

Nessa toada, sobrevivem os mais adaptados que são em tese os melhores mediadores dos seus mundos.

"O sentimento sadio é vida para o corpo..." (Pv 14:30)